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24 de abril de 2015

Retorno: O Tempo Insone



Depois de um longo tempo longe desse blog, volto a ele por causa de um sonho.
A verdade é que vivi (e ainda vivo)  uma fase que parece não ter fim, fixada na lâmina O Enforcado, o Arcano 12,  fase que vivi  também fisicamente, na própria pele, ou melhor, nos próprios ossos: fraturei gravemente a perna esquerda e fiquei “pendurada” em casa por meses, longe de todas as minhas atividades.
Só que ao tirar o gesso e voltar ao trabalho, aos amigos, aos romances, etc, eu já não era mais a mesma.
Creio que nunca mais serei a mesma. Mas essa é história para outra postagem.

Volto hoje ao blog com o seguinte sonho que tive nesta manhã.
Sonhei que encontrava uma amiga que não vejo há certo tempo, e eu estava muito feliz por revê-la.
Só que, ao observá-la de perto e durante nossa conversa, percebi que não era ela, mas uma espécie de sósia, de imitação, uma outra versão dela mesma, embora ela continuasse minha amiga.
E quanto mais eu conversava com ela, mais saudade sentia da minha “verdadeira” amiga....
Essa parte já interpretei: trata-se de mim mesma. Sou eu, encontrando com minha versão atual e com saudade da anterior, só que tudo projetado na figura de minha amiga....
Depois disso saio e entro num quarto escuro onde uma voz me diz, pausadamente:

“Preparação  ou Projeto do Tempo Insone: O fim do tempo é o pássaro que rompeu com a luz do jardim.”

Acordo , pego o celular e gravo essas frases imediatamente, porque sabia que eram importantes.
Penso no que poderia ser o título de abertura: “Preparação  ou Projeto do Tempo Insone”...
Preparação do Tempo que não dorme,  do Tempo que não descansa, que não tem paz.....
Uma circunstância de um Tempo, um zeitgeist, uma essência de uma época, de um período, onde o tempo seria insone, tribulado; no qual as coisas ocorreriam numa cadência frenética, sem o necessário descanso ou pausa.....
Um tempo insone.....(Nunca, acordada, associei essas duas palavras...)
Depois a outra parte: a frase em si...

“O fim do tempo ( Apocalipse, morte, destruição, transformação, ) é o pássaro que rompeu com a luz do jardim.”

Pássaros são seres livres, mensageiros dos deuses, conexões entre o Céu e a Terra, símbolos da alma.
E pássaros celebram a luz das manhãs, dos jardins, como nesta música de Cat Stevens....

Morning has broken

Morning has broken, like the first morning
Blackbird has spoken, like the first bird
Praise for the singing, praise for the morning
Praise for the springing fresh from the world
Sweet the rain's new fall, sunlit from heaven
Like the first dewfall, on the first grass
Praise for the sweetness of the wet garden
Sprung in completeness where his feet pass
Mine is the sunlight, mine is the morning
Born of the one light, eden saw play
Praise with elation, praise every morning
God's recreation of the new day

A Manhã Se Rompeu 

A manhã se rompeu, como a primeira manhã
O melro cantou, como o primeiro pássaro
Louvor para o canto, louvor para a manhã
Louvor para o nascimento recente do mundo
Doce é a chuva do novo outono
Iluminada pelo sol vindo do céu
Como o primeiro orvalho
Sob a primeira grama
Louvor para a doçura do jardim molhado
Brotado em completude
Por onde os pés dele passam
Minha é a luz do sol, minha é a manhã
Nascida de uma luz, o paraíso viu a diversão
Louve com entusiasmo, louve cada manhã
A recriação de Deus do novo dia


Acho que a letra dessa bela canção de Cat Stevens, hoje chamado de Yussuf, resume meu sonho-aviso.
O pássaro, quando rompe com a luz do jardim, dá início à época de escuridão, das trevas, do fim dos tempos, do Tempo Insone....
Acho que é apogeu da Morte, Arcano 13.....O fim, o rompimento de um período, para que algo novo surja....
A sincronicidade é que a amiga do sonho  estava comigo no momento em que fraturei a perna.
E em 2013, fomos juntas ao show de Cat Stevens no Brasil, show no qual ele cantou essa música.  Cat Stevens ficou 30 anos longe da música e dos palcos e essa turnê da qual tive a alegria de ver um show, era o seu retorno.....

19 de fevereiro de 2013

O Papa, A Torre, e A Estrela: Sincronicidades na Mesma Semana



Dia 11 de fevereiro de 2013, numa segunda-feira  pré–Carnaval, o Papa Bento XVI anunciou sua renúncia.
No mesmo dia, um raio atingiu a torre da Basílica de São Pedro, a sede do Vaticano e do poder papal.
Na sexta-feira, dia 15 de fevereiro, um meteoro caiu na Rússia, causando danos e ferindo várias pessoas.

Para os céticos, esses eventos nada possuem em comum.
Para a Escatologia, são sinais do fim dos tempos.
E para os tarólogos e estudiosos de Carl Jung, são sincronicidades, isto é, eventos que não possuem relação de causa e efeito uns com os outros, mas que guardam entre si uma poderosa relação de significados comuns e que acontecem no Grande Tempo como simultâneos.

Vejamos então o que aconteceu na semana de 10 a 16 de fevereiro desse ano.

Todos nós sabemos que a Igreja Católica anda sofrendo uma crise interna e externa como jamais vista.
Todas as denúncias que caíram sobre a Igreja e seus padres, fiéis deixando a Igreja em todo o mundo, escândalos de pedofilia, a condenação e não-aceitação do Vaticano aos diversos clamores da sociedade moderna e ainda,  a  velha proibição aos sacerdotes de se casarem e constituírem famílias, bem como a ordenação de mulheres, fizeram com que a Igreja Católica se mantivesse praticamente a mesma que era há séculos e séculos atrás.

A mesma em termos, porque suas estruturas arcaicas são mantidas em pé à custa de muito esforço e estão ameaçando ruir, apesar do mundo ter mudado.
Semelhante ao Arcano a Torre do Tarot, o Arcano XVI, também chamado de "A Casa de Deus" em alguns tarots.
(Publiquei uma postagem sobre esse Arcano aqui nesse blog e sugiro sua leitura).

Como o arquétipo representado pela carta do tarot, a Igreja vem mantendo as aparências há muito tempo.

Bento XVI, representante do Arcano nº V do Tarot, a carta o Papa, o Sumo Sacerdote ou o Hierofante, renunciando, abdicou de seu papel arquetípico de conselheiro espiritual, alegando motivos pessoais e posteriormente, motivos relacionados à própria estrutura atual de sua Igreja.
Na História do Catolicismo, papas só deixaram esse papel quando foram para o túmulo.
Mas Bento XVI, o Papa da Torre, não suportou o peso das crises vividas pela Santa Sé e não conseguiu ou não pode levar adiante sua missão de Hierofante: exercer o papel de ponte (pontífice) entre o homem e Deus; entre a Matéria e o Transcendente, entre o Mundo e o Espírito.
Papel que não é só o papel de um papa, mas dos grandes líderes religiosos, devido à sua essência arquetípica.

Talvez nunca saibamos todas as razões de sua renúncia ou abdicação.
Creio que para o Papa Bento XVI e Joseph Ratzinger essas razões são suficientemente fortes e muito profundas, ainda mais se tratando do homem que é, grande teólogo, estudioso e homem de fortes convicções.

Mas, e depois do Arcano o Papa numa posição negativa (ou negada) e da Torre, o que se seguiu na semana?

A Estrela, Arcano XVII, em sua posição invertida ou negativa.

Um clarão assombrou os céus da Rússia na manhã de sexta-feira, mesmo dia em que um outro asteroide passaria muito próximo à Terra.
A Estrela, Arcano XVII, carta seguinte ao Arcano A Torre, é o símbolo da fé, da esperança, de brilho em tempos de escuridão, de resgate de crenças, quando está em sua posição positiva e esses dias foi sincronisticamente manifestada em sua forma negativa, trazendo medo, insegurança e destruição,  deixando mais de 1.200 feridos na cidade russa de Tcheliabinsk.

Esses três eventos têm vários elementos em comum: o abalo das estruturas velhas, sustentadas por vigas que estão prestes a ceder; a necessidade de se  derrubar as aparências que as sustentam, o medo e a insegurança diante da forças transcendentes e divinas, o poder de Deus e as surpresas do Desconhecido.
São abalos de natureza política, religiosa, econômica, física ou da própria natureza, abalos manifestos, mas que ensejam, em seus significados latentes, chamar a atenção para algo mais abrangente, isto é, derrubar velhos e inúteis paradigmas, para que se promovam  mudanças coletivas profundas, tão necessárias à jornada humana.

E depois da Estrela, no Tarot, vem a Lua.
(Também escrevi sobre esses dois Arcanos aqui neste site).

Tempos nos quais nossa consciência fica obnubilada e as coisas se tornam pouco compreensíveis ao nosso olhar.
Tempos de fantasia, de engano, de ilusão, nos quais só podemos contar com nossa intuição, mas também tempos de travessia e de crescimento.

Creio que, no curso do Tempo, passaremos coletivamente por isso.

É uma tarefa um tanto estranha, para muitas pessoas, essa de enxergar coincidências significativas nos acontecimentos aparentemente desconectados.
Para outros, é mera fantasia e superstição.

Mas para nós, estudiosos de símbolos como o Tarot e das sincronicidades cotidianas e mantendo nossos olhos voltados ao que acontece quase em segredo,  é um envolvente e permanente desafio.

2 de agosto de 2012

As Mil e Uma Noites : Um Conto sobre a Riqueza e a Pobreza





Scheherazade, a Iluminada filha do vizir que encantou o sultão com suas histórias maravilhosas, durante mil e uma noites...com o objetivo de entreter seu rei e assim salvar todas as moças do reino de serem cruelmente assassinadas.....e num sentido mais amplo, todos nós,  toda a Humanidade... 

Scheherazade, que o Ocidente, com seu materialismo, não compreendeu como deveria, o tamanho da riqueza de suas histórias e de sua própria lenda.....

...Nos deixou esse lindo conto, que reproduzo aqui, e que trata de Destino, Sincronicidade, acaso, mérito, pobreza e riqueza, materiais e espirituais, entre tantas outras coisas.

Conto-diamante da incomensurável riqueza cultural e espiritual dos povos árabes e que chegou, depois de milhares de anos, como joia indestrutível, até nós.

Era uma vez dois velhos sábios, que sempre filosofavam sobre a vida.
Estavam  os dois, certo dia, a discutir sobre as causas da pobreza : se esta era consequência do destino,  se era predestinada ou se era fruto de falta de visão e mau uso das oportunidades que a vida oferecia.
E se, caso ou outro, o indivíduo poderia reverter essa situação de ser pobre, seja por méritos adquiridos, empenhos ou por uma espécie qualquer de recompensa do Destino.

Resolveram então testar o que pensavam.

Havia no lugarejo um homem chamado Hassam, muito pobre, casado e com muitos filhos.
Resolveram os dois sábios doar-lhe uma boa quantidade de joias, para ver o que acontecia.

Hassam  então recebeu alegremente as joias  mas, com medo de ser roubado, escondeu-as em seu turbante.
Pegou no sono e eis que vem uma porção de corvos e....levam embora o turbante recheado de joias!
Hassam, desesperado, correu para contar aos sábios o azar que a ele sucedera.

Os sábios, espantados, resolveram que desta vez dariam boa quantia em moedas de ouro a Hassam.
E assim foi feito. Entregaram-lhe as moedas de ouro e Hassam as levou para casa.
Mas, com medo de ser roubado, Hassam as escondeu dentro de um pacote de farelo de ração para animais e saiu para a cidade.
Sua esposa estava em casa e, procurada por alguns viajantes que precisavam de ração para seus animais, ela, sem saber, vendeu algumas sacas de farelo a eles e entre elas, a saca com as moedas de ouro escondidas pelo marido.
Qual a surpresa para Hassam, ao chegar em casa, e saber da fatalidade!!!
Foi novamente, desesperado, reclamar aos sábios de mais uma peça que o Destino lhe pregara.

Os sábios, ainda firmes em seus propósitos, resolveram então que desta vez dariam a Hassam um simples pedaço de chumbo, mas que dentro dele estaria escondida uma raríssima e valiosa joia, sem que Hassam soubesse disso.
Hassam então pegou o pedaço de chumbo, sem saber o que havia dentro, e o levou para casa.

Estava em companhia da mulher e dos filhos quando chegou seu vizinho, um antigo pescador do lugarejo.

Este lhe disse:
 _ Hassam, ontem eu tive um dia terrível. Minha rede se rompeu e não tenho como consertá-la, o que me impedirá de pescar e levar alimento para minha família. Se eu tivesse um bocado de chumbo, poderia consertá-la.....
Prontamente, Hassam lhe ofereceu o chumbo que ganhara dos sábios, deixando o pescador na mais pura alegria, dizendo-lhe:
_ Obrigado amigo, e prometo-te que, depois de consertada minha rede e lançada ao mar, o primeiro peixe que hoje eu pescar, será teu.

E assim, o pescador usou o chumbo de Hassam no reparo da rede que, lançada ao mar, pescou muitos peixes e o primeiro deles, conforme prometido, foi entregue a Hassam como símbolo da mais pura gratidão.

Hassam recebeu alegremente o peixe e enquanto o cozinhava, percebeu um imenso brilho dentro dele.
Era um diamante enorme, jamais visto em toda a redondeza, joia que Hassam logo vendeu a um mercador estrangeiro por muito, muito dinheiro.

Com o dinheiro, Hassam comprou muitos animais e também ração para eles e eis! 
Entre tantos e tantos pacotes de farelos comprados, lá estava a saca com as moedas de ouro que havia escondido, intactas, aquela saca que sua esposa havia vendido para os viajantes.
Hassam, com as moedas de ouro recuperadas, comprou uma casinha e ao mudar-se para ela viu seu filho mais velho correndo, vindo do quintal, trazendo na mão um ninho de corvos e um....turbante.... recheado de joias......

Esse lindo e comovente conto não fala da riqueza material, porque é uma parábola sobre a riqueza espiritual, o conhecimento interior, as virtudes, os talentos que, se usados e colocados em prática, traçam o nosso destino.

Os dois sábios, no conto, podem  representar Deus, o Universo, a Vida, doando essas virtudes, esses talentos (as joias, as moedas) a alguém que não as utiliza;  ao contrário, as esconde, “com medo de ser roubado”.

O Acaso, ou o acaso que não é acaso, mas sim uma Sincronicidade, arrumou um modo para que corvos, viajantes e pescadores com rede quebrada aparecessem na vida do protagonista do conto, para retirar o que ele havia ganhado ou para devolver a ele o que havia sido perdido.
Hassam, pelo seu caráter medroso e egoísta, escondeu esses talentos simbólicos e os perdeu.
Quando recebeu a joia oculta, envolta num simples chumbo sem valor material, não temeu ser roubado e foi aí que teve a chance de modificar suas atitudes e mudar seu Destino, quando doou, de coração, o metal ao pescador.

Talvez aí resida o mistério do Destino: nós o construímos com nossas intenções: conscientes ou inconscientes, expostas ou veladas.
Esses talentos, essas virtudes, joias que nos foram dadas, não para serem escondidas, mas compartilhadas, devem ser divididas, passadas adiante: devem tocar os outros e também mudar seus destinos, como Hassam mudou o seu e o do pescador.

Seriam tesouros que escondemos,  por “medo de sermos roubados” ?

Certamente essas virtudes podem se manifestar em diversas formas, tanto em um tipo de arte, profissão, atividade ou através das habilidades que possuímos, que teimamos em desprezar,  e que muitas vezes são como o chumbo-diamante da história : acreditamos que não possuem valor algum, mas servem para um pescador que não tem como consertar sua rede e lançá-la ao mar.

Esse conto nos leva a pensar que joia oculta carregamos sob o metal pesado, sob nossos medos, julgamentos, orgulhos, vaidades, preconceitos, tanto em relação aos outros, à Vida e mais importante: sobre nós mesmos ; aquelas riquezas imensas que temos dentro de nós, envolta por padrões petrificados, assimilados,  e que, se fossem essas riquezas compartilhadas, de coração,  seriam capazes de enriquecer nossa alma, a de muitos outros e por consequência, mudar nosso Destino.

O que nos é dado, doado, lá do Alto, não só a nós pertence.

22 de outubro de 2010

Uma História Pessoal de Sincronicidade: O Pássaro Morto e o Pássaro Encantado de Rubem Alves



É incrível como as sincronicidades acontecem.
Elas nos pegam de surpresa e aparecem para elucidar um fato, deixar um recado, dar pistas de um caminho.
E às vezes, para nos dar uma grande lição.
E surgem na forma de temas que se repetem, fatos semelhantes pela temática e que não tem relação de causa e efeito uns com os outros.
Apenas surgem, de uma forma mágicka e inexplicável pela lógica e pela razão.
Para os céticos, não passam de coincidências bobas.
Mas para quem ao menos, só um pouquinho, desconfia que há algo Invisível operando sobre nossas cabeças, são fatos desconcertantes e maravilhosos, aos quais  Carl Jung chamou de sincronicidade.

Foi o que aconteceu comigo nesses dias.

Eu tinha passado a semana muito preocupada com algumas questões importantes em minha vida, que envolviam meus planos de realizações e sonhos, como também uma certa visão de mim mesma tanto num futuro próximo como num futuro mais distante.
Isso é absolutamente normal, mas não sei por qual razão essas questões estavam literalmente me sufocando, como se eu tivesse que ter uma resposta pronta e uma ação para elas já, de imediato e não mais deixar que a vida seguisse seu curso com suas sequências e também com suas surpresas.
Eu estava num momento de forte ansiedade e tristeza e estava me cobrando ações que eu simplemente não podia executar.
E como não eram questões materiais que me afligiam,  mas espirituais e principalmente psicológicas e de longo prazo, fiquei bastante sensível com essa revisão que fazia de mim mesma e de tudo.
Vinha há alguns dias esperando por um insight, uma luz sobre minhas indagações e caso essa luz surgisse, eu estaria pronta para obedecer o que esses supostos insights me indicassem.

Na verdade, no fundo, no fundo, eu esperava por um "sim" ou por um "não" mágicos, que me orientassem  se eu deveria continuar alimentando esses sonhos ou simplesmente esquecer tudo e partir para outras coisas.
Eu vivia um dilema, típico de quem está  muito ansiosa diante da vida....
E desejei um oráculo de Delphos na minha frente, algo assim, como uma aparição dos deuses gregos, uma pitonisa à minha disposição ou uma tábua fabulosa de perguntas e respostas simples.... e nada que exigisse interpretações.
Um "sim" ou um "não" e tudo estaria resolvido para mim....

Mas as coisas não são simples assim: sei que muita gente tem sonhos reveladores, insights e intuições quando se perguntam algo de importante: eu mesma já os tive diversas vezes, mas para mim, dessa vez, nada, nenhum sinalzinho surgia para me ajudar.

Era de tarde e eu estava em meu trabalho e desci para fumar (maldito vício!) na imensa entrada do prédio e também para pensar em outras coisas, procurar me distrair, sei lá.
Mas a ansiedade e a força das questões que vinham me atormentando naqueles dias não me deixavam em paz.

"Rita, você terá que decidir, mesmo sem sinal algum...", pensei.
"Mas decidir o quê?", me perguntei.

Não quis fumar o cigarro inteiro. Algo me incomodava e eu não sabia o quê.

Foi quando meu olhar se desviou para um vaso de plantas próximo a mim.
Tinha algo escuro ali em cima, sobre as pedrinhas que cobriam a terra do vaso.
Algo preto e brilhante, mas muito suave aos olhos.

Então me aproximei e pude ver que se tratava de um passarinho morto.
Muito pequenino, o bico meio aberto e várias formigas passeando sobre seu corpinho inerte.
Certamente ele não morrera ali: alguém, com pena do bichinho, o colocara naquele vaso, provavelmente para ninguém o pisar e fiquei pensando como ele teria morrido.
Teria sido morto por algum gato? Algo pesado o atingira?
Ao mesmo tempo, senti uma espécie de revolta dentro de mim e pensei:

"Passarinhos não deveriam morrer nunca!"

Continuei olhando o bichinho e imediatamente comecei a imaginar ele vivo, brincando, rindo risadinhas típicas de passarinhos, tomando sol com seus amiguinhos, sacudindo as asinhas na chuva  e voando, voando e cantando. Seria filhote?
Por instantes voei com ele nesse exercício imaginativo e contemplativo e dessa vez, senti uma enorme injustiça no mundo.

"Passarinhos não deveriam morrer nunca!," pensei de novo.
"Mas também esse é o fim de todo ser vivente", pensei novamente.

Nesse momento, me veio à mente, com muita força, o escritor, educador e psicanalista  Rubem Alves.
Eu certamente já tinha lido essa frase sobre os passarinhos não terem que morrer e tinha certeza que era dele.

Voltei e peguei o elevador para minha sala e me lembrei da paixão do escritor pelos ipês, pela Educação, pela poesia, natureza e claro.....Rubem Alves devia amar passarinhos também!

Fui checar na internet se ele teria dito isso realmente, em que livro ou crônica tinha dissertado sobre a eternidade necessária dos passarinhos.....
Onde, como e quando teria dito ser a vida muito injusta, por permitir que passarinhos morressem...
Ou será que isso era coisa da minha cabeça?

Depois de pesquisar um bom tempo, o que eu encontrava sobre ele e pássaros era um conto dele, que eu nunca tinha lido, chamado "A Menina e o Pássaro Encantado".

Entrei num site que tinha o livro escaneado, de trinta e poucas páginas e lindíssimas ilustrações.

O conto fala de uma menina que era visitada por um passarinho encantado, que não vivia em gaiolas, mas que sempre estava viajando por lugares muito diferentes.
Em cada lugar que ele ia, trazia nas penas o colorido da paisagem visitada: era branco quando ia para a neve, verde quando vinha das florestas e assim por diante.
Também, de cada viagem, trazia uma história para contar, de alegrias ou de dores e a menina cada vez mais amava o pássaro, e ficava muito triste com cada sua partida.

Um dia ela resolveu prendê-lo: assim não sofreria mais de saudade.
Então preparou a armadilha, enquanto o bichinho descansava de mais uma longa viagem e o aprisionou.
Quando acordou e se viu preso, o pássaro repreendeu a menina e disse que ele não seria mais encantado.
E foi ficando cinza, triste e a menina, arrependida, o libertou.

E ele disse assim:
"Longe, na saudade, muitas coisas começam a crescer dentro de nós.
Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás para me esperar."

E o pássaro partiu.

A menina então, todo dia, colocava um enfeite novo, um vestido novo e se arrumava sempre.
"Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje", ela pensava.

E Rubem Alves termina esse conto assim:

"Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama."

E foi assim que ela, a cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento:
"Quem sabe, ele voltará amanhã. E ia dormir e sonhava com o reencontro."

Aí  termina a linda história.
Conto famoso de Rubem Alves que eu até então desconhecia e que dessa história  podemos pensar muitas coisas.
Em atitudes, pensamentos, valores e principalmente.....quem ou o quê é esse pássaro encantado em nossas vidas.

Em uma sincronicidade tremenda, eu recebera uma grande lição.
Um tapa na cara dado pelos mistérios dessa Vida....

Eu tinha um pássaro encantado que eu tentava aprisionar, explicar e decifrar; queria a todo custo ele ali, sob controle, com um mapa pendurado no pescoço de como chegar até ele.
Esse pássaro era meu sonho, esse sonho de vida tão íntimo, tão necessário e que eu, de modo arrogante, queria colocar numa gaiola.

E agindo dessa forma, acabar com todo o encanto que é essa Estrada, com todos os seus mistérios, em nome de racionalidades  e de uma teoria tola de que temos que fazer tudo certo, de que temos que agir, sempre agir, planejar, controlar e dominar todas as coisas que nos envolvem,  ainda  mais aquelas que pertencem aos campos onde somente Deus, O Grande Universo ou as Forças Maiores podem tocar.

Pensei que o certo mesmo era colocar um novo vestido, todos os dias, como a menina do conto, mas não um vestido de pano, e sim vestir a alma com aquelas expectativas que só as crianças possuem, e seguir minha vida assim, pelas estradas insondáveis que a Vida oferece.

"Passarinhos não deveriam morrer nunca e é assim que é, porque não morrem mesmo...", pensei.

Fiquei em silêncio por alguns instantes, com um indissolúvel nó na garganta e fiquei pensando no passarinho lá embaixo, inerte, em cima de um vaso de plantas.
Através dele, encontrei a resposta que tanto buscava e não num oráculo bobo e vazio de "sins ou de nãos".
Era uma mensagem de fênix.
Aquele passarinho foi o catalisador de uma incrível, mágicka  e abençoada sincronicidade que veio ao meu encontro.

Ele e o Pássaro Encantado de Rubem Alves, juntos, me ensinaram o que eu precisava.
A resposta tão esperada tinha sido dada, de um modo inesperado.
E sou muito, muito grata por isso.

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