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22 de dezembro de 2012

Beleza: Onde Ela Está?



De preferência, assistam ao vídeo abaixo, para depois lerem minha postagem, por razões que vocês verão depois.
É um episódio da fabulosa série The Twilight Zone, da década de 60, concebida pelo gênio Rod Serling, e que serve de reflexão sobre o tema da Beleza, entre tantas outras coisas.

O episódio chama-se ”The Eye of Beholder”. 
Série que sou incondicionalmente apaixonada, com música de Bernard Herrmann, e este é um dos meus episódios favoritos, entre outros.

Prestem atenção! É emocionante e lindo.
Para aqueles que nunca o assistiram, peço que prestem atenção aos diálogos e ao contexto da história.
E o quanto dela acontece nos dias de hoje.
É demais! Uma obra-prima.

Em inglês, legendado em português:
http://www.youtube.com/watch?v=gKmoOQnaFm0

REFLEXÕES......
O assunto ”beleza”  veio ao meu encontro, várias vezes nos últimos dias, e por causa disso senti uma enorme necessidade de  escrever sobre o que é a Beleza.
Talvez sejam sincronicidades surgindo....

A primeira dessas visitas do tema girou em torno de um grande amigo que tenho e que acho um homem muito bonito.
E eis minhas razões: ele é diferente, inteligente, crítico, um homem que vê o que ninguém percebe, é intuitivo, exótico, autêntico; os gestos e o olhar são únicos e é aquele tipo de homem tão complexo, enigmático e original que é impossível que não seja notado onde quer que ele esteja.
Enfim, ele é mágicko.
Mágicko no sentido de passar para outros suas virtudes, mas às poucas pessoas que as percebem.

A segunda vez que o tema veio foi por causa desse episódio da série “The Twilight Zone”, que revi na internet esses dias e que posto acima e abaixo para quem se interessar. 
O episódio se chama  ”The Eye of Beholder”  e  trata da beleza sob o ponto de vista de quem observa, a beleza subjetiva ou ela através de padrões estabelecidos.
É um lindo episódio e vale a pena assisti-lo.
E também fiquei sabendo de uma notícia: que um morador de rua de São Paulo, cidade onde moro, estava mobilizando e emocionando toda a cidade, para que ele saísse das ruas e encontrasse logo um lugar para morar,  atenção e preocupação jamais dispensada aos outros sem-teto e tudo isso só pelo fato de ele ser considerado pela maioria....um homem bonito, por ser jovem, loiro, de olhos azuis, com corpo escultural e traços europeus!
Enquanto isso, os sem-teto “feios”, continuarão morando nas ruas, sem que ninguém se mobilize para tentar resolver seus problemas!!
E a quarta vez que o tema  me voltou  foi  num texto de Rogério Hetmanek sobre flores e ikebana,  envolvendo o Belo, o Bem e a Verdade.
O texto dizia o seguinte: “para compreender o que é o belo é fundamental que se entenda, antes, que ele é a materialização do Bem que, por sua vez, é a manifestação da ação da Verdade.  Esta, em última análise, é o estado natural do ser na sua totalidade, considerando as suas realidades invisível, perceptível e visível, ou seja, sua missão, suas funções e sua forma, respectivamente.”
Gostei muito dessa definição.

Então, tudo parte de uma Verdade e esta  ”é o estado natural do ser em sua totalidade”.
E no dia a dia, aqui e acolá, vejo as capas de revistas, fotos em internet, pessoas circulando em todos os lugares, gentes de vitrines, atraindo os olhares, sendo alvo de comentários e sendo chamadas de belas, quase que por unanimidade e me pergunto: de onde vem tudo isso?

Quem ou o quê determina o que é belo ou o que é feio?
Como e porque esses padrões de beleza surgem?
O que faz de alguém belo? Ou feio?

Segundo a idiotice dos supostos estudos científicos, a beleza provém da harmonia dos traços e do corpo, isto é, ela é o resultado da simetria e do equilíbrio que existe entre as partes de alguém: uma espécie de combinação harmônica, uma espécie de “perfeição” do conjunto.
Claro que a tal simetria é baseada em padrões estéticos pré-estabelecidos pelo status quo.
Pensem nas madonas dos séculos passados que eram tidas como belas e que hoje são tidas como horrendas!
Pensem nos homens dos anos 50, com suas belezas hollyoodianas e que serviam de padrão  aos milhares de homens da época e que hoje não inspiram nenhum a segui-los e nem arrancam suspiros de mulher alguma!!
Pensem no século I, ou no XX, onde ser belo certamente era muito diferente do que ser belo hoje.

Então, a harmonia não está na combinação ou na suposta perfeição dos padrões estéticos impostos e que variam de acordo com o tempo.
A Beleza, essa com “B” maiúsculo,  tem que estar acima do que é transitório e passageiro.

Ou seja, a Beleza tem que ter a ver com essência e isto não morre nunca, não acaba, não muda, porque o que é Verdadeiro tem que ser permanente e eterno.
Creio nisso com toda a profundidade.
Creio nos olhos de quem olha e suas riquezas; creio no observado, com suas riquezas....
Creio que a harmonia está na relação entre todos os aspectos existentes num indivíduo, numa cidade, num objeto, numa planta, num animal ou no quer que seja.

A beleza é o resultado da interação desses aspectos, sejam eles acordes dissonantes ou consoantes da personalidade de alguém ou de algo, ou seja, sua essência manifestada.

A música dodecafônica, com suas lindas dissonâncias e consonâncias é um exemplo maravilhoso disso.
Mas.....para enxergar a verdadeira beleza que existe nas pessoas e em tudo, é preciso  ir para dentro, em tudo aquilo  que se observa e que se vive.

A Beleza, certamente, parte de dentro.
É um mergulho, antes de tudo.
Tenho uma tímida definição para a Beleza:
É algo ou alguém que nos toca, porque reverbera em nossa própria essência.
Poderá ser uma flor murcha e linda; poderá ser um gatinho idoso ao qual amamos, poderá ser um deserto aparentemente sem vida biológica, mas vivo e maravilhoso aos nossos olhos, ao nosso espírito.

(Particularmente, desde criança, sou cronicamente apaixonada por todos os desertos desse mundo e as mais belas praias deste planeta e seus mares nunca me inspiraram para coisa alguma nessa vida!)....
Ser belo....ser feio.....
Até onde a ditadura das maiorias, esse infame fenômeno, se interpõe sobre nossas visões de mundo?

Sobre nossos conceitos de beleza e feiúra?
E para quem preferiu ler esta postagem antes de ver o episódio que indiquei, vai aí novamente o link.

Não deixem de ver.
Em inglês, legendado em português:

10 de maio de 2011

Você vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos - When You Whish Upon a Star


Confesso que assisti a esse filme de Woody Allen depois de ler uma série de críticas negativas a respeito dele, e de ouvi-las também!

Que um dos mestres do cinema tinha feito um filme pequeno; que era um filme pessimista sobre o amor; que mostrava, com muito humor negro, a realidade patética das pessoas em busca da felicidade amorosa, etc, etc, etc.

Não sou crítica de cinema, nem crítica de coisa alguma nessa vida, nem especialista nisso ou naquilo, muito menos conhecedora de Allen, mas ao longo do tempo adquiri um olhar que os psicanalistas chamam de pensamento mágico, próprio dos loucos e das crianças...os céticos chamam a isso de olhar alienado e eu e meus irmãos e irmãs de Trajetória, um olhar místico, um jeito ocultista de ver as coisas, inclusive, alguns filmes.

Tal é a razão desse blog.

Esse olhar...

Pois bem.

É com esse olhar “lunático” que vejo as coisas e fiquei um tanto surpresa com o final do filme.

E foi com a empolgação desses olhos que resolvi escrever este texto, embora goste muito de cinema.

Acho, de certa forma, que os críticos estavam certos: Allen quis mostrar a realidade nua e crua da busca do amor e a dureza da vida e seus golpes infames, mas creio que seu inconsciente o traiu (?), ou talvez Woody Allen tenha se cansado da Psicanálise (?), ou quis mesmo debochar dos místicos (?), ou tudo isso junto, sei lá o que ele pretendia, mas me prendi a um detalhe o tempo todo: a personagem Helena, a “lunática”, a “alienada”, a “sonhadora”, a cheia de “pensamento mágico”, a nada, a nadinha realista Helena, mas de alma verdadeira, como Jonathan, que aliás, diga-se de passagem, são os dois maravilhosos lunáticos da trama.

Se você não viu o filme e pretende vê-lo, nem continue a ler esse artigo, porque vou contar o filme inteirinho e estragar completamente a surpresa preparada no final do filme.

Retome-o, caso tenha interesse, depois de assisti-lo.



Então vamos lá.



O filme começa com uma linda canção, “When you whish upon a star”, interpretada por Leon Redbone.

Linda, perfeita para gente como eu, lunática!!!

Um narrador onipresente começa dizendo que “a vida é uma história contada por um louco, cheia de som e fúria, significando nada”, citando Shakespeare.

E então, ele começa a apresentar o drama dos personagens.

Na Londres contemporânea, Helena (a ótima Gemma Jones) é casada há 40 anos com Alfie (Anthony Hopkins) e este, com medo da já chegada idade, tem um súbito “impulso juvenil” e daí procura por academias, malhação, bronzeamentos, vitaminas e para se divorciar de sua mulher, a dedicada Helena, mãe de sua filha, é um rápido passo.

Conhece a clássica loira-burra-jovem-linda-exploradora-oportunista-vulgar-sedutora-troféu, a garota de programa Charmaine (a engraçadíssima Lucy Punch) que logo, logo, faz morreeeerrr de inveja, como era de se esperar, seus amigos & vizinhos & colegas de trabalho, pela recém - conquistada carne fresquíssima.

Trivial, não?

Dá a ela casacos de pele, jóias e um apartamento no mais badalado bairro de Londres e como era também de se esperar, se atola em dívidas, Viagras e chifres.

Helena, sua ex-mulher, temendo os dias que virão, procura por uma vidente, que faz as mais belas previsões sobre seu futuro : “Você vai conhecer o homem de seus sonhos”, ela diz, e entre outras profecias alentadoras para Helena, prevê também o futuro de seu genro e de sua filha, Sally, previsões, aliás, nada agradáveis.

Sally (Naomi Watts), filha de Helena e Alfie, é casada com Roy (Josh Brolin), um quase quarentão que há muito tempo abandonou (ou melhor, nunca exerceu) a Medicina para ser escritor.

O problema é que só escreveu um único livro de sucesso e depois disso, nunca mais conseguiu escrever nada que alguma editora ao menos aceitasse publicar.

Ele vive às custas de Sally, que trabalha na galeria de arte de Greg, um homem sedutor, bonito e bem sucedido, mas casado (Antonio Banderas).

As brigas entre o casal são frequentes, porque Roy não consegue terminar o que seria seu segundo livro promissor, está desempregado e o salário de Sally não cobre todas as despesas da casa, tendo que recorrer à ajuda financeira de Helena, sua mãe.

Então Roy passa a paquerar a vizinha de apartamento, Dia (Frida Pinto), jovem, bonita, porém com casamento marcado, e esta logo se transforma em sua “musa inspiradora”, desse seu livro que nunca termina.

Sally, por sua vez, se vê apaixonadinha pelo patrão Greg, que não passa do clássico cafajeste cuja mulher “não o entende”, que “o casamento vai mal”, mulher essa que “é bipolar, problemática, tadinha”, que “não se separa por causa das crianças”, etc, etc, etc..., conversinha bem conhecidinha desde que existem seres humanos na Terra, mas os dois, Greg e Sally, não chegam a ter um caso, apenas flertes, embora Sally queira muito e fantasie ter esse caso com ele.

Seria ótimo para ela trocar o fracassado marido-escritor- desempregado pelo bem sucedido, bonito e sedutor Greg...

Mas, voltemos ao pai dela, Alfie.

Alfie descobre que sua loira - vários adjetivos - troféu o trai continuamente e está grávida (e ele, obviamente não tem certeza se é o pai).

Já endividado, procura a ex-mulher Helena e ela não o quer de volta.

Sally descobre que o patrão-bonitão-perfeitão Greg está tendo um caso com sua amiga artista Iris (Anna Friel) e que todas as lorotas que ele contou a ela sobre seu casamento contou a amiga também.

Mesmo assim, Sally sente que perdeu um partidão, que se tivesse dado mais sinais, talvez, sido mais “atirada”, quem sabe ela poderia ter se tornado sua amante, ao invés da amiga.

A essa altura, seu marido Roy já seduziu a vizinha.

Depois de ter o segundo livro finalmente terminado e rejeitado pela editora, Roy resolve roubar o livro escrito por um amigo que, num primeiro momento, pensava que havia morrido num acidente de carro, mas que depois descobre estar em coma; livro este que só Roy tinha conhecimento, tinha lido e achado espetacular.

Não pensa duas vezes: invade a casa do amigo em coma e apresenta o livro à editora como se fosse seu.

Claro: conquista de vez a jovem e volúvel vizinha, a família inteira da moça, que rompe o noivado às vésperas do casamento para ficar com o “talentoso escritor” Roy que, através de uma farsa e de um roubo, agora torce para que o amigo nunca saia do coma, para que acabe morrendo mesmo e que assim não possa reivindicar a autoria do livro que lhe deu prestígio, fama, dinheiro e o amor de uma moça enganada, que estava prestes a subir ao altar para se casar com outro homem, talvez, quem sabe, seu verdadeiro amor.

E Helena?

A lunática, louca, alienada, criticada, a tresloucada e sonhadora Helena passa os dias consultando Cristal (Paulinne Collins), a vidente, tida por todos como charlatã.

Acredita que vai encontrar o homem de seus sonhos, mesmo sendo uma senhora de idade....mesmo depois de 40 anos num casamento....acredita que vai conhecer um estranho que aparecerá em sua vida, de repente, vindo do nada, parecido com ela, com a mesma espiritualidade que a dela, como diz a vidente Cristal.

Sally alimenta as esperanças da mãe, talvez por piedade, talvez para conseguir dela o empréstimo que tanto quer para montar sua própria galeria de arte...

Alimenta essas esperanças, mas odeia quando a mãe fala sobre o futuro dela e de seu marido, Roy.

Crê firmemente que a mãe não passa de uma senhora maluca que precisa urgentemente de um psiquiatra...

Mas Helena só ouve a vidente Cristal e seu coração lunático...

Até que um dia...

Até que um dia conhece Jonathan (Roger Ashton-Griffiths).....um senhor dono de uma livraria de Ocultismo, viúvo e ainda com fixação pela falecida mulher, com a qual tenta contatos espirituais.

Helena não tem a princípio o amor-padrão-revelado de Jonathan; possui sua amizade e companheirismo, pois, em se tratando de amor, acredita que competir com uma morta é tarefa difícil....mas continua o encontrando; saindo com ele e conversando muito.

E Helena, a lunática, a que crê nas estrelas, em fadas, em cartas, em reencarnação, em astrologia, é finalmente pedida em casamento por Jonathan, obviamente, depois da “autorização” da falecida, por meio de contatos espirituais.

Sally fica sozinha e sem montar sua tão sonhada galeria....e sem ter um caso com o bonitão-perfeitão-mentirosão Greg, seu patrão.

Alfie (continua ou não, não se sabe), com sua loira-golpista-troféu, prenha de outro homem, endividado e envergonhado.

Iris vira amante do sedutor e mentiroso Greg, que provavelmente deve ter outras na sua coleção, assim como as obras de arte em sua galeria.

Roy, mergulhado numa nojenta farsa, reza para que o amigo nunca saia do coma e revele a origem do livro que não é seu, da fama que não é sua, do dinheiro que não lhe pertence e do amor de uma mulher que nunca deveria tê-lo amado.

E Helena e Jonathan, os lunáticos que acreditam nas estrelas, em reencarnação, em tarots, em Ocultismo, em bruxas e em Destino, ficam juntos no final ....ao som da fantástica e irresistível “When you whish upon a star”.....

E assim termina esse estranhíssimo e belo (?) conto de fadas de Woody Allen; belo e conto de fadas para mim, uma lunática, como Helena e Jonathan.

E a vidente Cristal estava certa, em tudo que disse.

O filme acabou e fiquei rindo, rindo um riso de revanche.

Nada contra os realistas, longe disso!

Mas é que aquele champanhe no parque....e aquela conversa mística de Helena e Jonathan no final do filme....foram deliciosos demais!!!

Eu estava lá, comemorando com eles!!

Afinal, os “alienados”, os lunáticos, venceram no final.

Fiquei imaginando Helena ajudando Jonathan em sua livraria de Ocultismo e em quanta coisa ela iria ler, fuçar, encomendar para a loja, procurar em sebos, enfim... tanto conhecimento se abrindo para ela, assim, de um modo inusitado, mas esperado em seu coração; quantas conversas maravilhosas teria com os clientes; e depois, no final do dia, ela e Jonathan, indo para casa, felizes, pensando como eram especiais por terem encontrado um ao outro; para Jonathan, que sua falecida Claire devia estar contente por seu casamento com Helena e esta, por sua vez, dando graças a Deus por ter se livrado de um idiota vazio e fútil como Alfie e por ter encontrado....

O homem de seus sonhos!! (sortuda!!!)

E os outros personagens, mereciam encontrar o amor?

Mentiras.

Esse era o universo deles.

Um mundo de luxo, poder, dinheiro, fama, eterna juventude, status social, sucesso, beleza e muita, muita futilidade.

Todos os personagens realistas, pés no chão, afundados até o pescoço na realidade, essa realidade cheia de falsidades e futilidades, continuaram nas mesmas mentiras nas quais viviam.

Que paradoxo, não?

Esse é o mundo de todos os personagens, exceto o de Helena e Jonathan.

Eles, apenas eles, alimentavam uma esperança baseada na inocência, na doçura, na Verdade Interior que era motivo de riso e deboche dos realistas, seguidores dos manuais modernos do “se dar bem”, do “fazer a fila andar”, do troca-troca de pessoas como se fossem mercadorias.

Helena e Jonathan não queriam resolver suas vidinhas através do encontro com uma pessoa idealizada, ou de escrever o livro espetacular, ou de voltar a ter 20 anos, ou de se casar com o escritor do século, ou com a maravilhosa da cidade, ou de se unir ao bem sucedido bonitão das artes, mas deixaram que o Destino guiasse seus corações, uma vez que eram donos das ricas essências que neles estavam contidos.

Mesmo que todos rissem.

Jonathan acreditava que sua falecida mulher era insubstituível, porque a amou de verdade, mesmo depois de morta, até encontrar Helena, que vibrava na mesma sintonia que a sua.

Os outros personagens apenas seguiam padrões ditados pela cultura de consumo, de aparências, enganando aos outros e a si mesmos.

Jonathan e Helena estão para o mundo das crianças, que seguem seus corações, não importando a idade cronológica que possuem.

Os outros personagens se igualam no que há de mais patético, mais superficial, que são esses valores todos aos quais se sacrificaram e que os decepcionaram depois.

Não amam nada, apenas são marionetes nas mãos de um sistema estúpido.

Eram Helena e Jonathan os verdadeiros enganados?

Será que existe mesmo uma Estrela, aquele Arcano 17, brilhando sobre a cabeça dos “lunáticos”?
Creio que sim!!

Afinal, quem é o verdadeiro lunático, depois que tudo o que é passageiro, passa?

Deixo aqui a canção-tema, desejando, com todo meu coração, que todo lunático e lunática-estelar, que todas as Helenas e Jonathans encontrem, no tempo certo, todos os seus sonhos.





Your dream comes true...

27 de abril de 2011

O Labirinto do Fauno e o Caminho Espiritual


Esse filme é uma verdadeira obra-prima, tocante e universal, daqueles que não saem de minha cabeça e que também já vi e revi muitas e muitas vezes.

Daqueles filmes que vem para ficar e criar vários pontos com diversas situações da vida.

De uma beleza de doer na alma e também duro, sombrio, poético e desconcertante.

Do ano de 2006, escrito e dirigido pelo diretor mexicano Guillermo Del Toro, é um conto de fadas que se desenrola simultaneamente à uma triste e cruel realidade.

Ambientado no fim da Guerra Civil Espanhola, em 1944, sob o domínio do general Franco, conta a história de uma menina de 11 anos, Ofélia, órfã de pai, que vai morar com sua mãe, grávida de seu novo marido, o cruel, sanguinário e monstruoso capitão Vidal (interpretado de forma sublime pelo ator catalão Sergi Lopez), um perseguidor de rebeldes da resistência, contrários ao regime fascista e que domina com mão de ferro os humildes habitantes da pequena vila onde é uma espécie de senhor feudal.

A mãe de Ofélia, quando não está na cama, por sofrer uma gravidez de risco, cumpre apenas seu papel de esposa submissa e não se importa com a filha.

Vidal, por outro lado, ocupa-se em “manter a ordem vigente”, dando pouca atenção à esposa, apenas se preocupando com o filho que ela carrega e logo deixa transparecer muita antipatia pela enteada.

Ofélia, uma menina apaixonada por livros, sente-se solitária e rapidamente faz amizade com a discreta e generosa cozinheira da casa, Mercedes, que substitui simbolicamente a mãe ausente.

A menina, em suas andanças pela floresta, descobre um labirinto subterrâneo nas imediações da casa e nele um fauno, uma criatura metade humana, metade bode, que conta que ela é uma princesa de um reino também subterrâneo e que é muito amada e esperada por seus pais verdadeiros, por seu povo e que precisa reassumir seu lugar em seu reino.

O fauno diz a Ofélia que ela precisará provar que não se tornou uma mortal e assim vai dando- lhe difíceis e perigosas tarefas para cumprir, todas num mundo invisível aos olhos das outras pessoas. As tarefas de prova são três que a menina terá que cumprir.

Também lhe entrega um livro em branco, cujas páginas serão preenchidas com imagens do futuro, isto é, daquilo que Ofélia deverá fazer, ou o Destino.

A menina então passa os dias driblando a vigilância da mãe e do cruel padrasto, percorrendo bosques fantásticos, conversando com fadas, penetrando em universos paralelos e visitando o dúbio fauno, que sempre lhe propõe mais e mais desafios.

Lá fora, a realidade é de submissão ao fascismo, por parte de uns, e de luta e resistência, por parte dos rebeldes ao governo franquista, sistematicamente perseguidos pelo capitão Vidal, que faz derramar muito sangue.

Uma triste e sufocante realidade.

O filme narra, por meio do fantástico, não só as dores e a opressão da guerra e da injustiça vistos aos olhos da pureza infantil; sobretudo mostra um Caminho Iniciático, através da pureza de coração da personagem principal, a garota Ofélia.

Pode-se pensar que todo o mundo invisível que se apresenta a ela, incluindo o fauno, é fruto de sua imaginação para escapar à dura realidade e sobreviver a ela, processo comum nas crianças.

Essa é a interpretação mais superficial do filme.

Digamos, extremamente superficial.

Pode-se pensar também que a menina tem traços esquizofrênicos, como pensam outros ainda menos dotados de imaginação e presos demais somente àquilo que pode ser visto e mensurável.

Só que a mensagem é mais ampla.

Trata-se de um filme arquetípico, usando como pano de fundo uma “realidade” em sua faceta mais cruel: a guerra.

O filme começa com um narrador contando que num reino subterrâneo havia uma princesa que queria conhecer o mundo dos humanos e que em seu reino não havia nem mentiras nem dor e que um dia ela fugiu e veio à superfície.

A luz do sol fez com que ela perdesse a memória e a princesa acabou morrendo, mas seu pai, o rei, sabia que ela voltaria um dia, em outro corpo, em outra época.

Tudo nos leva a crer que se trata de Ofélia.

É filha de um rei, amada por seus familiares, princesa de um mundo subterrâneo, esse Reino Superior do qual ela tinha vindo e que ora se encontrava distante.

Mas, de qual mundo subterrâneo o narrador nos fala? Que mundo é esse onde não há mentiras nem dor, onde ela é princesa, onde o Reino é verdadeiro, onde há harmonia e justiça e que ela, por curiosidade, teria fugido, para conhecer o mundo dos humanos, onde acabou morrendo?

De que verdade teria escapado a menina, para sucumbir em uma “realidade” cheia de mentiras?

De que mundo veio Ofélia, segundo o fauno?

Creio que este seja o grande tópico do filme: a busca da Verdade, mesmo que ela se esconda numa realidade que poucos podem ver.

Acreditamos que o que é real é só aquilo que podemos ver, tocar, cheirar, medir, contar, ouvir, sentir com os cinco sentidos e que podemos compartilhar com as outras pessoas, isto é, somente aquilo que os outros também testemunham é que pode ser chamado de realidade.

Por isso, nesse texto, de vez em quando usarei aspas para o termo realidade.

Essa “realidade” que é dividida e presenciada também pelos outros é a única coisa possível de existência.

Toda e qualquer percepção individual, isto é, aquilo que só eu ou só aquele sujeito vê, ouve ou sente já é considerado alucinação, fruto de uma mente doente, ou na melhor das hipóteses, fruto de uma personalidade muito criativa e imaginativa, mas nunca pode ser considerada realidade, porque “realidade” é somente aquilo que todos estão presenciando.

A chuva que cai às 4 horas da tarde na cidade de Santos é real, mas a pessoa que se materializa diante dos olhos de João não pode ser real, tem que ser uma alucinação do moço!!

Ainda mais se João estiver com mais pessoas por perto e afirmar ver alguém que ninguém mais vê!!

É nesse universo subjetivo, que não pode ser compartilhado com os demais, mas do qual podem sentir seus efeitos que Ofélia está inserida.

Ofélia é uma menina de valores nobres como solidariedade, amor, fé, compaixão, inocência, pureza, amizade, espírito de sacrifício e altruísmo e as tarefas impostas pelo fauno, para que retorne ao seu Reino, exigirão que ela os coloque em prática.

São as provas que a menina dará que não se tornou uma “mortal”, isto é, que não se tornou como a maioria das pessoas, que não são dotadas desses valores.

Que não foi contaminada pelos vírus da ganância, do poder, da inveja, do medo, do egoísmo, da arrogância, da mentira, do engano.

Nós, ocultistas, sabemos muito bem o que isso significa: trata-se de um processo sacrificial, que nos faz abdicar de todo conforto que as glórias mundanas podem proporcionar e que nos leva a uma Trilha difícil que um dia, lá atrás, escolhemos seguir.

Um Caminho árduo, dificílimo, cheio de tarefas e provas, solitário, mas impossível de ser abandonado.

Alienação?

E quem é o verdadeiro alienado? Ofélia ou Vidal?

O que é mais real? O mundo de Vidal, do general Franco, da Segunda Guerra Mundial, do domínio de Hitler sobre a Europa, ou o mundo de Ofélia, de seus valores espirituais, de faunos, fadas, mandrágoras mágicas e sonhos?

Um ano depois o fascismo seria varrido da Europa; o general Franco estaria deposto; Hitler morto e o nazismo reduzido às cinzas e os seres de Ofélia, assim como seus valores, continuariam e continuam a habitar o inconsciente coletivo e alma humana como sempre habitaram.

Quantos reinos de reis antigos e modernos, sejam eles da Roma do século II ou da Manhattan do século XXI, se dissolveram feito pó ao vento, enquanto os sonhos e os valores da garota Ofélia estão escritos até hoje, inabaláveis, na indestrutível rocha dos tempos?

Seriam metas da evolução?

Creio que sim.

Há quem diga que o mundo sempre será feito de vidais e ofélias.

Por enquanto.

Como ocultista, creio que um dia os vidais desaparecerão, quando essas metas forem atingidas.

Quando alcançarmos a condição de príncipes e princesas de um Reino onde não há nem mentiras nem dor, quando formos amados e amarmos nosso verdadeiro Pai e descobrirmos a essência de Sua criação em nós mesmos.

Seguimos então, esta meta, atentos às passagens das Ofélias que por aqui transitam, e como nos conta no final o narrador:

“E dizem que a princesa retornou ao reino de seu pai,

Que reinou por muitos séculos,

Que foi amada por seus súditos e que deixou atrás de si pequenos sinais de sua passagem pela Terra, visíveis apenas para aqueles que sabem aonde olhar.”

1 de julho de 2010

Dogville e a Miséria Espiritual

                                
                              
Dogville, de 2003, do diretor dinamarquês Lars Von Trier, é um dos filmes mais interessantes e incríveis que já vi e revi até hoje, mil vezes, um de meus preferidos, de profundidade psicológica, social, moral e espiritual espantosas e que toca na questão do perdão, da inveja, da justiça, da exploração do outro, do orgulho, da perigosa ética pessoal, da compaixão sem medidas e da prepotência.

Dogville é um lugarejo fictício dos EUA, ambientado na época da Grande Depressão Econômica, na década de 30, onde vivem algumas pessoas em situação de extrema pobreza, isoladas do mundo e aparentemente satisfeitas com suas vidinhas.
O espaço cenográfico do filme é apenas um tablado escuro e simples de teatro, marcado no chão com giz, que delimita a ação dos personagens: o cenário é quase inexistente e nem há divisórias nas cenas, além de somente alguns objetos aparecerem no decorrer do filme inteiro.
O que parece ser um filme chato ou excêntrico em seu início (e excêntrico é mesmo!!) surpreende a cada passo o expectador, porque o que virá a seguir é uma história perturbadora e incomum, além dos diálogos e do elenco fantásticos.

Há um narrador onipresente que nos insere na trama, na verdade nos atos do filme-teatro e que nos deixa a par do que se passa e do que virá a ocorrer em Dogville.

Enfim, um filme de Mestre. Para ser odiado ou idolatrado.

Das poucas pessoas que vivem lá, há um pseudo-filósofo, Thomas Edison Jr, um jovem que sonha em ser escritor, mas que nunca chegou a escrever algo, porque está sempre perdido em suas constantes divagações, estéreis e sempre inúteis.

Existe também uma família que vive de raspar copos usados e surrados para serem vendidos fora de Dogville, como se fossem novos.
Nessa mesma família há um pretenso engenheiro, outro pseudo-intelectual, de inteligência medíocre e que vive às voltas com tentativas infrutíferas de vencer uma partida de xadrez.
Há ainda um cego solitário (numa interpretação magistral do ator Ben Gazzara), que nega veementemente sua cegueira para todos e uma mulher que “toca” o órgão da igreja, mas não o faz emitir sons, para não “gastá-lo” e assim “poupá-lo” quando algum padre vier assumir a paróquia!!

A mediocridade e a mentira estabilizada de Dogville são interrompidas com a chegada de Grace, uma jovem fugitiva de gangsters e que pede abrigo no lugarejo, ela personagem central do filme (interpretada com perfeição pela atriz Nicole Kidman).

A permanência e a acolhida de Grace pelos habitantes serão feitas mediante uma condição: que Grace prove que é útil ao local, embora os habitantes declarem que não precisam de absolutamente nada além do que possuem e também de que não necessitam da ajuda de ninguém.

É a partir daí que toda a trama se desenvolve.

Grace (o nome não é à toa, significa graça, benção divina) começa então a dar auxílio às pessoas de Dogville, que ainda assim continuam dizendo que de nada necessitam: ensina xadrez para o limitado rapaz; faz com que a mulher toque de verdade o órgão da igreja; conforta o médico hipocondríaco, pai de Thomas, mostrando-lhe que não está doente e nem à beira da morte; ajuda nas tarefas domésticas na casa de uma mãe com uma filha deficiente; limpa casas, educa crianças, colhe maçãs; é conselheira, amiga e companhia agradável para o perturbado e superficial Thomas Edison Jr e faz com que o cego assuma sua cegueira para a cidade, entre outros atos de auxílio, socorro, compreensão, amparo, amizade e benevolência.

Com seu olhar cheio de boas ideologias, acredita que aquelas pessoas todas são dignas de ajuda, de atenção e que merecem uma chance na vida: que só precisavam de alguém que olhasse por elas, que as amparasse no dia a dia e acreditasse nelas e em seus potenciais.

Grace chega a ser grata por ser tão bem acolhida e vê beleza nas coisas, no lugar e nas pessoas daquele miserável lugarejo.

Esse é seu grande erro.

Na verdade, ao longo da trama, com suas atitudes caridosas, Grace vai desmoronando o mito de que todas aquelas pessoas eram auto-suficientes e felizes em suas condições e que suas vidas eram pautadas em coisas sólidas e verdadeiras.

Grace, sem querer, vai mostrando como são limitadas e que poderiam sim necessitar de ajuda: apenas negavam sua ignorância e viviam acomodadas em suas mentiras particulares e coletivas.
Por ter vivências completamente diferentes daquelas dos aparentemente humildes e injustiçados habitantes de Dogville; pelo seu padrão cultural e social oposto aos deles e principalmente pela sua ideologia de que o conhecimento, o amor, o auxílio, a companhia e a compreensão devem ser dados a todos, indistintamente, é que Grace viverá no decorrer da história o maior de todos os pesadelos que um ser humano poderia viver.

O inferno físico, moral e psicológico no qual se transformará a vida de Grace é fruto de sua desmedida compaixão e de sua intromissão nas trevas de cada habitante do local.

Porque a grande pobreza de Dogville não é a material; ela apenas coincide, casa e sincroniza com a gigantesca miséria espiritual e psicológica de cada um de seus habitantes.
As pessoas que moram lá vão deixando transparecer a imensa inveja que sentem de Grace, inveja essa que se transformará em ódio ao longo da trama.

O filme termina de modo surpreendente e muito chocante, terrível mesmo, com tintas de Nietzsche principalmente e nos inquieta demais, mexendo com os conceitos que aprendemos ao longo da vida.
Os diálogos finais nos deixam desconcertados, com um certo incômodo e isso é feito propositalmente.
Toda a falta de cenário, nos últimos atos, fala através de luzes e sombras, num golpe de genialidade do diretor e da equipe técnica.

E no meio disso tudo, o único personagem que parece estar ao lado de Grace é Thomas Edison Jr.
Na verdade, ele talvez seja o mais esperto e o único verdadeiro hipócrita de todos, porque o benefício que Grace traz a ele não é de ordem material.
Ele finge estar indignado com a situação cruel de Grace e afirma que encontrará uma solução para a jovem e para o fim de seu suplício.
Para ele, ela é a amiga e a inspiradora de suas inúteis teorias filosóficas.
Se os outros habitantes de Dogville podem ser comparados com ratos, Thomas seria uma espécie de verme, de parasita, destruindo Grace por dentro, parasitando e corroendo suas crenças e esperanças.

Mas o curioso é que Grace aceita em silêncio seu martírio.
Por quê?

Porque crê firmemente que faz a coisa certa.
Como Cristo, que pede ao Pai na Cruz: “Perdoai-os porque eles não sabem o que fazem”, Grace acredita também que eles não sabem o que fazem....porque são pobres, são simples, são uns coitados, uns humildes desventurados, desprezados pelo mundo e que não tiveram oportunidade de crescer como seres humanos, oportunidade essa que ela, Grace, teve na vida.
É uma forma de má interpretação das palavras do Mestre.

A ideologia de Grace é a causa de toda sua tragédia, misturada a uma certa prepotência e ao Complexo de Salvadora, talvez.

Quantos de nós temos nossas Dogville na vida; quantas vezes estendemos a mão para as pessoas erradas, porque julgamos que são dignas de ajuda, porque tiveram uma vida difícil, porque foram injustiçadas pela sociedade, pelo mundo, por Deus ou pelo Diabo?
Quantas vezes abrimos nosso coração, nossa mente e também nossos bolsos para amparar pessoas manipuladoras e choramingas?
Quantas vezes enxergamos beleza, autenticidade, inteligência, irreverência, profundidade, graça e espontaneidade onde nunca existiram, a não ser em nossos olhos ingênuos; quantas vezes não vimos isso em pessoas que no máximo são porcos disfarçados de gente?
Quantas vezes aturamos um discurso retrógrado e hipócrita, de que a pobreza e a falta de instrução são sinônimos de bom caráter e de santidade?

Que aqueles que nasceram em berço de ouro deverão ser punidos para o resto de suas vidas; os que estudaram deverão ser merecedores da masmorra e que o conhecimento, o amor e a amizade devem ser dados a todos, mesmo que sejam ratos se fingindo de humanos?

A atitude arrogante de Grace é, na verdade, a contramão do Ocultismo.

Como dizia o Mestre Eliphas Levi: "Podem publicar, divulgar e até revelar alguns segredos da Arte do Ocultismo, porque poucos, muito poucos mesmo compreenderão o mínimo necessário."

E certamente nem estarão dispostos a seguir em frente!!
O conhecimento de certas coisas não pode ser oferecido a qualquer um.

É preciso uma luz interior para iluminar as ferramentas que serão usadas para se atingir a Luz Maior e pouquíssima gente sobre essa Terra possui essa luzinha suficiente.
Já podem se sentir felizes aqueles que possuem dentro de si uma chama pequena como a de um fósforo aceso, porque nos tempos atuais, de materialismo e escuridão espiritual isso já é uma grande coisa.

Outra lição que se pode tirar do filme é a de que também não se pode e nem se deve forçar alguém destituído dessa mínima luz que veja o que tem que ser visto, nem tentar avivar chamas internas que ainda estão muito adormecidas.
Muita gente, como os habitantes de Dogville, sente-se incomodada quando percebe que ainda deve aprender muito nessa vida e isso fere o orgulho feroz que mora em suas almas pequenas.
É necessária muita humildade, coisa rara nesse mundo de competições e de egocentrismo, para que a evolução de cada um se faça de maneira plena e edificante.

Porque Grace, através de um suposto bem, pratica uma grande injustiça, um grande mal, contra si e contra os habitantes de Dogville.
Através da benevolência direcionada àqueles que não a mereciam, ela é humilhada pelo ódio e pela inveja e desperta o pior que há dentro daqueles seres, que até então se julgavam felizes e satisfeitos com suas vidas.

É a prepotência da caridade de Grace.
Ela possuía esse direito? De querer, através de sua ética pessoal, "iluminar" pessoas que não pediram isso?
De esperar gratidão, compreensão ou ética de pessoas incapazes dessas atitudes?

Alguns dirão que o bem deve ser feito a qualquer um.
Tenho dúvidas quanto a isso.
Primeiro porque questiono o que vem a ser “um bem”.
E quando somos prejudicados pelo "bem" que praticamos, que justiça há nesse ato?
Qual o valor moral acima de todas as cabeças?
Sacrificar-se por pessoas que não valem à pena é ato de heroísmo ou de falta de amor a si mesmo?
E como saber, por outro lado, quem é digno de ajuda, de compreensão e de receber conhecimento, se esse merecimento não está estampado na testa das pessoas?
Como responder a essas questões?

Embora extraído e transferido de seu contexto original, não consegui encontrar palavras melhores para nos indicar isso do que aquelas palavras ditas por Jesus de Nazareth, no célebre Sermão da Montanha:

“Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas, para não acontecer que as pisoteiem e, voltando-se, vos despedacem.”
“Assim, toda árvore boa produz bons frutos; porém a árvore má produz frutos maus.....
....Portanto, pelo seus frutos, os conhecereis.....”

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